terça-feira, 28 de maio de 2013

COMISSÃO DA VERDADE RECEBE DEPOIMENTOS DE EX-PRESAS POLÍTICAS‏

Um passado muito presente na vida de duas ex-presas políticas foi testemunhado nesta terça (28) pelas pessoas que lotaram o plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Os depoimentos da cineasta Lúcia Murat e da historiadora Dulce Pandolfi fizeram parte do primeiro evento da série Testemunhos da Verdade, promovido pela Comissão Estadual da Verdade do Rio. A Comissão, presidida pelo advogado Wadih Damous, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, foi criada por lei, de autoria dos deputados Gilberto Palmares (PT), Graça Matos (PMDB), Luiz Paulo (PSDB) e Paulo Ramos (PDT).

Palmares reforçou a importância de resgatar a história do Regime Militar no Brasil, que aconteceu entre 1964 e 1985. “Um país que não recupera a sua história corre o risco de repeti-la. Essa comissão vai dar uma grande contribuição para que não voltemos a conviver com o que aconteceu durante a ditadura militar, para que as novas gerações saibam o que aconteceu durante esse período no Brasil”, ressaltou o petista. Marcados por grande emoção, os depoimentos de Dulce e Lúcia deixaram claro que socos, chutes, pontapés e choques eram realidade nas dependências do Doi-Codi, no então quartel da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, onde as duas ficaram presas e foram torturadas.


Dulce Pandolfi foi presa em 1970. “Durante os mais de três meses que fiquei no Doi-Codi, fui submetida, em diversos momentos, a diversos tipos de tortura. Umas mais simples, como socos e pontapés, e outras mais grotescas, como ter um jacaré andando sobre o meu corpo nu. Recebi muito choque elétrico e fiquei muito tempo pendurada no chamado 'pau de arara', os pés e os pulsos amarrados em uma barra de ferro e a barra de ferro colocada no alto, numa espécie de cavalete”, relatou Dulce. Lúcia Murat também sofreu diferentes tipos de torturas e disse que aceitou dar esse depoimento porque acredita que essa é a única maneira de fortalecer a democracia. “Não faço isso por desejo de vingança, nem por masoquismo. Acho fundamental para a história do País, acho fundamental para a minha filha e a minha neta que esses fatos sejam revelados e apurados. Ainda tem muita coisa que a gente não sabe exatamente o que aconteceu, tem desaparecidos que foram torturados e mortos em lugares que a gente não conhece, e isso tem que ser revelado”, destacou Murat, que ficou presa entre os anos de 1971 e 1974. “Fui presa e torturada pelos métodos utilizados na época: espancamentos generalizados, pau de arara, choques elétricos na vagina, na língua e pelo corpo; utilização de baratas vivas pelo corpo”, contou a cineasta, que tem até hoje um problema de sensibilidade na perna decorrente da tortura.

Presidente da comissão, Wadih Damous destacou a importância desses depoimentos e disse que o País deve muito a pessoas como Dulce e Lúcia. “É muito importante mostrar para as gerações brasileiras os 21 anos de ditadura e como a tortura virou uma política de estado nesse período”, salientou Damous. Os nomes do major da Polícia Militar Riscala Corbage, conhecido como Doutor Nagib, do major João Câmara Gomes Carneiro, conhecido como Magafa, do médico Amílcar Lobo, do Cabo Gil, do agente da Polícia Federal Luiz Timóteo de Lima, conhecido como Padre, do coronel da reserva Paulo Malhães, do major Cinelli, do major Demiurgo e do tenente Armando Avolio Filho, conhecido como Apolo, foram citados pelas testemunhas como participantes dos processos de tortura vividos por elas.

Com a meta de colaborar com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, a delegação estadual atua no esclarecimento de fatos e circunstâncias de casos de violação de direitos humanos no estado do Rio, identificação e divulgação da estrutura e locais dos abusos, recomendação de ações, reconstrução de histórias, entre outros. Também integram a Comissão Estadual da Verdade do Rio o jornalista Álvaro Machado Caldas; a presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia, Eny Raimundo Moreira; o representante da Associação Nacional dos Anistiados Políticos, Aposentados e Pensionistas Geraldo Cândido da Silva; o ex deputado federal Marcelo Cerqueira e a coordenadora do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, Nadine Monteiro Borges. 

Comunicação Social da Alerj
Edição: Camilo Borges

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